
No contrato que assinei quando criei o Cansei de Netflix, lá em 2019, eu assumi o compromisso de ser sempre sincera e tenho tentado cumprir, mesmo que às custas de perder minha carteirinha de leitora exemplar. Este é mais um texto em que vou cometer um sincericídio, mas depois eu me mostro uma pessoa um pouquinho melhor. Então, sejam bondosos.
A história é a seguinte: eu evito ler calhamaços. Se for um clássico conhecido por ser desafiador, então… São necessárias muitas indicações com cópias assinadas e autenticadas em cartório pra chegar a hora dele. E não é por desinteresse. É que tenho uma lista longa e em constante fase de crescimento de livros a serem lidos. Além disso, não tenho o hábito de ler mais de um livro por vez, o que gera certa ansiedade em leituras longas, e, infelizmente, sou uma mulher do meu tempo: viciada em dopamina e estímulos rápidos.
Mas assim como outras mulheres do meu tempo, eu tenho tentado combater o imediatismo, o FOMO e, principalmente, o tempo que perco com meu celular. E, por isso, no ano passado, achei que seria uma boa ideia reagir e tentar ler Grande Sertão: Veredas, respeitando o tempo que o livro me exigia. Foi desafiador, óbvio, porque me custou um tempo longo de adaptação à voz do Riobaldo e outro tanto de tempo pra entender que eu não ia conseguir ler mais do que, sei lá, cinco páginas por vez. Mas foi igualmente prazeroso. Por tudo que o livro tem de maravilhoso e também por ter conseguido domar a ansiedade e acompanhar os reveses da história com calma. Quando o livro terminou, eu fiquei tão dopaminada que decidi tentar fazer isso mais vezes e tirar da fila outras histórias longas.
E cá estou, lendo Dom Quixote há quase dois meses e ainda com muitas páginas pela frente. O desafio é consideravelmente maior do que com o Grande Sertão, porque Dom Quixote tem mais que o dobro de páginas e é uma história de 1605, quando até o jeito de contar histórias era outro. Acabei tendo que colocar um livrinho de contos na jogada, porque não dá pra carregar o tijolinho da Penguin Companhia pra outros lugares e eu estava sentindo falta de ter algo pra variar um pouco. Maaaas estou lendo! E estou me divertindo com o humor espertinho de Cervantes e a tradução maravilhosa do Ernani Ssó, que fez um trabalhoso primoroso.
Ontem cheguei na página mil e lembrei dessa reportagem, sobre como os livros estão ficando cada vez mais curtos. Um calhamaço é caro pra quem produz, pra quem vende e pra quem compra e a gente também sabe que quantidade de páginas não tem nada a ver com a qualidade de um livro. Mas acho que muita gente tende a evitá-los por motivos parecidos com os meus. E, se tá faltando ânimo por aí, esse texto é meu incentivo pra você tentar de novo. 🙂




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