Margarida La Rocque: a ilha dos demônios, de Dinah Silveira de Queiroz

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Apesar de Dinah Silveira de Queiroz ter sido a segunda mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e sua obra ter tido certa notoriedade nas décadas de 40 e 50, eu não conhecia nada sobre ela até a Editora Instante anunciar a reedição de algumas de suas histórias. Desde então, a autora entrou para o meu radar e aqui estamos, com uma leitura proporcionada pelo trabalho chique de editores que se empenham em apresentar para novas gerações autores e autoras que andam meio esquecidos. 

O livro é baseado em um trecho da Cosmografia do padre André Thevet, de  1595, em que o religioso narra ter conhecido uma mulher de nome Marguerite, que teria sido abandonada em uma ilha deserta. A história criada por Dinah de Queiroz, no entanto, é narrada sob o ponto de vista da mulher, que neste caso, se chama Margarida. 

“Começarei, padre, bem do começo, para que certas coisas possam ser entendidas. Nasci sob um mau fado.”

Como se estivesse se confessando a um pároco, a personagem nos conta que nasceu em uma pequena aldeia francesa e cresceu acompanhada da profecia de que conheceria o inferno em vida. Depois de uma infância de superproteção, Margarida se casa com o aventureiro Cristiano e parte para Paris na companhia do marido e de sua ama, Juliana.  Se o casamento prometia uma vida cheia de aventuras, na nova cidade Margarida experimenta a solidão e o ciúme de um cônjuge que sai para explorar o mundo desacompanhado.

Com o sumiço do marido em uma dessas explorações, Margarida decide cruzar o oceano rumo à América para buscar notícias. No meio do caminho, porém, um romance proibido com o tripulante João Maria faz com que Margarida, seu amante e sua ama sejam abandonados na ilha conhecida como “ilha dos demônios”. O trio de personagens passa, então, a enfrentar as agruras de reconstruir a vida em um lugar abandonado. 

“Às vezes… penso que a solidão e o desespero criam demônios e fantasmas. Eles jamais habitam lugares cheios de povo!”. 

O livro é dividido em duas partes. A primeira narra a vida antes da ilha. A segunda e mais longa, se passa na ilha, misturando literatura fantástica e terror psicológico, com lebres falantes, entidades da floresta e uma boa dose de alucinações. É interessante como a história começa realista e vai tomando rumos que nos fazem questionar sobre o que está acontecendo e se podemos confiar na narradora – ou até mesmo se ela confia no que está narrando. 

Em algum momento os mistérios vão se tornando cíclicos e a mistura entre os sentimentos e as “visões” da personagem me deixaram com a sensação de ter perdido algo na história. Talvez esse clima mais denso e delirante não faça do livro a melhor porta de entrada para a literatura de Dinah — que teve clássicos como Floradas na Serra e A Muralha adaptados para a TV. Ainda assim, recomendo a leitura pela construção da personagem. Margarida é inspiradora no seu desejo por liberdade e sua força para buscá-la. Terminei animada para conhecer outras obras da autora. 

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