Tenho tentado ler (ou reler) pelo menos dois clássicos por ano. Para 2025, os planejados foram Dom Quixote e O cortiço. Sobre o primeiro já falei um pouco como foi a experiência aqui. Agora, foi a vez de O Cortiço.

A história gira em torno de João Romão, taberneiro português que decide construir um cortiço nos fundos da sua venda, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Todo o empreendimento é movido pela exploração do trabalho de Bertoleza, ex-escrava que se torna vítima de uma relação marcada pelo interesse.
O desejo de ascensão de João Romão conduz a trama, mas não é o único ponto de interesse. Aluísio Azevedo cria uma narrativa sem se concentrar em apenas um personagem principal, com o protagonismo mudando de mãos o tempo todo. A partir do cotidiano no pátio do cortiço, acompanhamos histórias como a de Jerônimo — o trabalhador português “desviado” pela paixão por Rita Baiana — e de Pombinha — jovem virgem que vive a famosa cena da primeira menstruação —, entre tantas outras que compõem esse mosaico social.
É curioso como o livro nos transporta para a sociedade carioca do século XIX, revelando suas rotinas, tensões, tragédias e costumes. A linguagem também cumpre esse papel: a prosa de Azevedo é rica em expressões, adjetivos e termos que hoje soam quase esquecidos. É um lembrete vivo de como a língua portuguesa se transforma — e de como essa transformação é parte da sua beleza.
O Cortiço não entrou para a lista dos meus favoritos, mas é, sem dúvida, uma leitura essencial para quem gosta de literatura brasileira e se interessa pela história da nossa sociedade.
Livro: O cortiço, de Aluísio Azevedo
Editora: Penguin & Companhia das Letras
Ano de publicação: 1890 (edição de 2015)
Nº de páginas: 320




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